Uma série de documentos obtidos com exclusividade pelo portal Metrópoles revelou detalhes preocupantes sobre uma operação financeira conduzida pelo Banco de Brasília (BRB), envolvendo a aquisição de ativos do Banco Master. Segundo as informações, o banco estatal teria desembolsado aproximadamente R$ 498 milhões ao adquirir duas vezes a mesma cédula de crédito bancário (CCB), em um negócio cercado de fragilidades e alertas técnicos ignorados.

O caso, que vem sendo detalhado em reportagens assinadas pelo jornalista Demétrio Vecchioli, levanta questionamentos sobre governança, gestão de risco e transparência dentro da instituição financeira pública.

Operação envolve frigorífico e crédito de alto valor

No centro da controvérsia está uma operação relacionada à empresa RKO Alimentos, um frigorífico localizado no Mato Grosso. A companhia teria contraído um empréstimo de R$ 400 milhões junto ao Banco Master em dezembro de 2023, com prazo de carência até fevereiro de 2026.

O problema começa quando o BRB adquire essa mesma dívida em duas ocasiões distintas. A primeira compra ocorreu em outubro de 2024, no valor de R$ 174 milhões. Já a segunda, realizada em junho de 2025, custou mais R$ 324 milhões. Somadas, as operações chegam a quase R$ 500 milhões.

O fato de o banco ter adquirido duas vezes o mesmo ativo, sem garantias consideradas adequadas, chamou a atenção de especialistas e órgãos de controle.

Primeira aquisição teve garantia questionável

Na primeira transação, o BRB identificou que as garantias apresentadas pela operação não atingiam o mínimo exigido pelo próprio banco, que é de 130% do valor do crédito. Para compensar essa deficiência, foi exigida a inclusão de um imóvel como garantia adicional.

O ativo apresentado era um imóvel avaliado em cerca de R$ 1,3 bilhão, localizado em Mata de São João, na Bahia, região conhecida por empreendimentos turísticos de alto padrão.

No entanto, investigações posteriores revelaram que o imóvel nunca pertenceu ao Banco Master. Ou seja, ele não poderia ser legalmente utilizado como garantia na operação. Além disso, não há qualquer registro de alienação fiduciária vinculado a esse bem, o que reforça a inconsistência da transação.

A ausência de garantia válida já na primeira operação acendeu um sinal de alerta que, segundo os documentos, não foi devidamente considerado.

Segunda compra foi ainda mais arriscada

A segunda aquisição, realizada em junho de 2025, apresenta um cenário ainda mais crítico. A decisão foi tomada em caráter de urgência, em um momento em que o BRB buscava substituir ativos considerados problemáticos adquiridos anteriormente do Banco Master.

Com a necessidade de demonstrar solidez ao Banco Central, o BRB optou por adquirir novamente a mesma CCB da RKO Alimentos, mesmo diante de diversas inconsistências apontadas pela própria área técnica do banco.

Um relatório interno, assinado por cinco superintendências da instituição, listou pelo menos 18 pontos de risco na operação. Entre os principais problemas identificados estavam:

• Ausência de garantia imobiliária real;
• Falta de comprovação do uso dos recursos;
• Inexistência de acompanhamento da aplicação do dinheiro;
• Índice de garantia abaixo do mínimo exigido (69%);
• Ausência de documentos financeiros atualizados.

Apesar da gravidade dos alertas, a operação foi aprovada poucas horas após a emissão do relatório técnico.

Fundo de investimento levanta dúvidas

Outro ponto que chamou atenção diz respeito à destinação dos recursos do empréstimo original. Segundo os documentos, 90% dos R$ 400 milhões deveriam permanecer aplicados em um fundo de investimento, sendo liberados gradualmente conforme o avanço dos projetos da empresa.

Inicialmente, o fundo previsto era o “Bravo”. No entanto, posteriormente, os recursos foram transferidos para outro fundo, chamado “Titânia”, sem que houvesse qualquer aditivo contratual formalizando essa mudança.

Para a área técnica do BRB, essa alteração sem documentação adequada representava mais um fator de risco relevante, reforçando a fragilidade da operação como um todo.

Parecer jurídico veio depois da aprovação

Um dos aspectos mais críticos do caso é o fato de que a operação foi concluída antes da emissão de um parecer jurídico completo. O documento, que deveria orientar a decisão, só foi produzido dias depois da aprovação da compra.

O parecer jurídico, datado de 11 de julho de 2025, apontou a necessidade de pelo menos oito medidas adicionais de segurança, incluindo a criação de cláusulas de proteção institucional, como a possibilidade de revenda do ativo.

Especialistas consideram essa sequência de eventos altamente incomum, já que o procedimento padrão em instituições financeiras exige análise jurídica prévia para operações desse porte.

Impacto nas contas do banco

As reportagens indicam que operações como essa podem estar contribuindo para um rombo ainda não totalmente dimensionado nas contas do BRB. A aquisição de ativos considerados “frios” ou de baixa qualidade compromete a saúde financeira da instituição e pode gerar prejuízos significativos.

Além disso, o caso levanta preocupações sobre a capacidade de avaliação de risco do banco e a efetividade de seus mecanismos internos de controle.

Repercussão e possíveis desdobramentos

A divulgação dos documentos gerou forte repercussão no meio político e econômico. Especialistas defendem a abertura de investigações para apurar responsabilidades e esclarecer como uma operação com tantas inconsistências pôde ser aprovada.

Órgãos de controle, como o Banco Central e tribunais de contas, podem ser acionados para analisar o caso e determinar eventuais irregularidades.

Para analistas, o episódio reforça a importância de transparência e rigor técnico na gestão de instituições financeiras públicas, especialmente em operações de alto valor e complexidade.

Conclusão

O caso envolvendo o Banco de Brasília e o Banco Master expõe falhas graves em processos de análise e aprovação de operações financeiras. A compra duplicada de um mesmo ativo, somada à ausência de garantias adequadas e ao desrespeito a alertas técnicos, levanta sérias dúvidas sobre a governança da instituição.

Mais do que um episódio isolado, o caso pode representar um indicativo de problemas estruturais que precisam ser investigados com profundidade. Em um cenário de crescente exigência por transparência e responsabilidade na gestão pública, situações como essa tendem a ganhar ainda mais atenção nos próximos meses.

O desfecho dependerá das apurações que vierem a ser conduzidas e das medidas adotadas para corrigir eventuais falhas. Enquanto isso, o episódio segue como um alerta sobre os riscos de decisões tomadas sem o devido respaldo técnico e jurídico.